domingo, 14 de dezembro de 2008

Cores do Céu


Cá estou eu. Do meu lado direito tenho um céu azul. O Sol brilha enquanto fecho os olhos com toda a força apontando na sua direcção e sinto-o aquecer-me o corpo e dourar-me o cabelo. Do lado esquerdo o céu é cor-de-rosa. É bonito, devo dizer. As nuvens bailam e vão formando outras novas e mais bonitas. Não sei que lado escolher: se o que me aquece e conforta, se o que baila e me faz sorrir. Tu, paciente e carinhosamente, seguras a minha mão enquanto tomo uma decisão. “Não vais pelo lado cinzento outra vez” dizes tu com a minha mão ainda apertada na tua. Não quero ter de escolher. Para nós devia haver um meio-termo. Já imaginaste de que cor seria? Podíamos dançar e sorrir até de manhã, e no fim, quando já estivéssemos a cair de tanta felicidade, optávamos pelo azul para nos aquecer e confortar. Só assim estaríamos lá no dia seguinte e a poder sorrir de novo. Hoje, o céu está amarelo e já não me seguras a mão. Achas que, ainda assim, deva sair de casa?

terça-feira, 1 de julho de 2008

Meu querido


Obrigado! Parece que finalmente conseguiste renunciar a tudo o que me pertencia. Aos poucos, fui recebendo em casa pequenas encomendas. Na primeira, lá estava o meu silêncio. Devolveste-mo finalmente e eu rapidamente me apoderei dele na tentativa de emudecer o meu triste soluçar. A segunda, com uns rabiscos feitos à pressa trazia o sonho. Dizias que esperavas que o pudesse usar rapidamente. Ainda hoje a guardo junto à cabeceira na esperança que uma das noites o consiga reviver. Na seguinte conseguiste suscitar a curiosidade dos vizinhos. Era uma caixa grande e parecia ter vida. Juntas-te lá dentro a minha alegria e a nuvem colorida. Dizias que tinham mais poder juntas. Sempre achei que era só para poupares tempo e trabalho a enviar-me o que me pertencia. Algumas semanas se passaram até receber mais uma caixa, mais uma encomenda, algo que me pertencia e agora não querias mais. Desta vez estavas a devolver-me o brilho no olhar, não foste capaz de escrever uma anotação que o acompanhasse. Deduzi que já não precisasses dele. Passaram-se dias, semanas e até alguns meses. Achei mais uma vez que seria incompetência dos serviços e não tua. Esperava ansiosamente e os vizinhos rapidamente perceberam, talvez mais rápido do que eu, que nada mais chegaria. Mas a mim continuava a faltar-me uma coisa. Algo que tomaste como teu e nunca devolveste. Nem agora que não o queres e o desprezas. Esqueceste-te de me devolver o sorriso, meu querido.

segunda-feira, 30 de junho de 2008

Personagens


Por vezes parecemos a história de uma daquelas novelas sem sentido nenhum. Daquelas que exibem muito floreado e onde a pobre se apaixona pelo rico ou a feia pelo bonitão. Nós apenas mudamos o decorrer natural das coisas. Não nos apaixonamos com um olhar nem vivemos a história de amor perfeito. Contentamo-nos apenas com a parte (pouco) romanceada e com as coincidências habilmente relatadas. Dou por mim a falar no plural quando na realidade sou eu quem vive e se contenta com o pouco que vivemos. Somos personagens secundárias com direito aos desencontros tipicamente novelescos. Em cada episódio costuma aparecer o vilão que estraga, sem piedade, a felicidade do apaixonado casal. Mais uma vez mudamos a acção. Alternamos entre nós esse papel da mesma forma que destruímos os sonhos um do outro. Depois, voltamos à normalidade onde tu sorris e eu perdoo, eu peço desculpa e tu finges perdoar. Mas durante todo este tempo nunca deixamos de representar. A mim sempre me couberam os papéis difíceis. Sou aquela que berra, que irrita, que afasta as pessoas e que não tem ninguém sempre que precisa. Mas aquela que é, no fundo, a que procuram quando os problemas surgem. E sente-se importante assim. Ajuda e quando a vai solicitar, já ninguém quer ouvir porque está demasiado feliz para isso. Existe sempre alguém que desempenha este papel não é? O teu também não é nada que tenha surgido num rasgo de originalidade. Aliás parece até que a tua personagem foi construída a partir da minha tornando todas as características opostas para que não desse tanto trabalho a sua procura. És o sensível e adorado. Nunca desapontas nem desiludes. Tens amigos e sentido de humor. Não gritas nem manifestas qualquer som que seja mais forte. O teu tom de voz não se altera em nenhuma circunstância. És daquelas personagens que poderia passar despercebida durante todo o tempo de duração da novela. Não te deixas conhecer nem irradias uma sala assim que entras, mas és sempre muito tu e cada vez mais menino que vai, a pouco e pouco, despejando palavras sábias antagónicas à atitude de sempre. Continuamos a surpreender. Por vezes, perguntas-me como estou e não consigo dizer-te a verdade. Limito-me a dizer-te que está tudo bem. E tu rematas dizendo que gostas de me ver sorrir. Pura simpatia da tua parte. Na realidade não gostas de nada que me diga respeito e julgas que eu também não. Enganas-te tanto, meu querido! Depois vêm os momentos embaraçantes e saídos da tela. Quando, por distracção de ambos, íamos chocando. Nenhum de nós soube reagir. Riamos como crianças e olhávamo-nos sem proferir uma única palavra. Mas como todas as histórias, há sempre um final. Feliz ou não. Tranquilo ou não. E nós, como não poderia deixar de ser, fugimos ao destino tipicamente novelesco. Não houve final feliz nem sorrisos contagiantes. A mim ainda me falta a tranquilidade e sobras-me tu. Tentei a todo o custo que a ideia de ti morresse com o final da tua personagem. Que tu próprio te perdesses e não mais ousasses representar. Não dividiremos mais o protagonismo ou a falta dele. Agora, nesta nova acção, é cada um por si meu querido.

quinta-feira, 15 de maio de 2008

Todos os cantos cheiram a ti.


Todos os cantos cheiram a ti. A rua, as casas, até a minha vida tem o teu perfume. Sempre achei que fosse mito, e confesso, até ridiculo, quando ouvia alguém dizer ‘Chateado ficas mais bonito’. Deixei de o fazer. Chateado, triste, o que quer que seja oposto a boa disposição faz-te parecer melhor. Até sorris, imagina. Por vezes penso que gosto da imagem que criei de ti e não daquilo que és na realidade. Aquela coisa da apreensão do objecto através da construção de uma imagem partindo das suas caracteristicas, sabes? Sou tão má a interpretar-te como sou a Filosofia. Por vezes procuro-te por cada espacinho vago que haja na rua, outras, rezo a todos os santos em que não acredito só para que não apareças. Ver-te, não significa mais do que não te ter. De que na realidade nunca vais ser mais do que isso. Hoje o teu cheiro era mais intenso. Pela primeira vez invertemos papéis. Desta vez fui eu a descarregar a minha frustração em ti. Se fores capaz, desculpa-me.
Parece que conseguiste.Perdoar-me e aceitar-me. Finalmente senti isso. Não sei durante quanto tempo durará.A preocupação, o sorriso e o sorriso seguinte. Hoje, mais do que nunca preciso de ti. De te sentir.

sexta-feira, 2 de maio de 2008

Fotografia


Nunca precisei tanto de ti. Nunca desejei que as coisas não tivessem sido assim. E, principalmente, nunca quis mudar-te. Não como quero agora. Como quero poder fazer-te perceber que só podes ter a importância que me deixares dar-te. Cada vez mais tenho a certeza que não és o menino perfeitinho que achei conhecer. Não és perfeitinho. Talvez menino continues a ser. Por vezes, olho para a nossa fotografia e desejo torná-la só minha. Mas tirar-te da fotografia não me permite tirar-te da minha vida. Não sais assim tão facilmente. Continuas a fazer o que fazias exactamente quando eras um menino perfeitinho. Chegas, sorris e abandonas-me. Deixas-me o teu sorriso e partes. Não há nada mais sensato que possas fazer. Não há nada que me magoe tanto quanto isso. Continuo a precisar de ti e a sonhar contigo. Continuas a fazer-me falta e eu continuo a não conseguir perceber-te. Quero que tudo isto acabe. Tenho medo de deixar de gostar de ti. Ultimamente já nem sorris. Nem falas. Nem me olhas. Receio que finalmente te estejas a revelar. Que este sejas, verdadeiramente, tu. Ao olhar para a fotografia, só vejo isso. Um pedaço de papel, dois rostos estranhos e dois sorrisos enganadores. Não somos tão felizes como ali aparentamos, pois não? Não ficamos tão bem juntos como dizem que ali estamos. Mas é só um pedaço de papel. Vamos envelhecer juntamente com aquele pedaço de vida. Da minha vida. Ela deteriorar-se-á assim como nós. Assim como aquilo que sinto por ti. Mas é só uma fotografia. Pode desaparecer com um rajada de vento, ser destruída pela inundação que houver aqui em casa em dia de tempestade, ficar perdida numa das gavetas. Mas eu, meu querido, não sou levada pelo vento, nem corro o risco de perder a cor com a inundação. Infelizmente, também não me posso perder numa das gavetas. Mas sorri. Posso sempre gostar um bocadinho de ti.

quarta-feira, 16 de abril de 2008

Tão menino


Não te conheço.
Transformaste-te em tudo um pouco.
Mas não, nunca, no menino que imaginava.
Não te percebo.
Não sei porque continuas a insistir em não me deixar entrar na tua vida quando foi apenas e só o que de bom soubeste fazer com a minha.
Não te peço que me fales.
Ouve-me apenas.
Não te peço que me sorrias.
Só não me faças chorar.
Quero que sejas sempre tu porque é assim que gosto de ti, mas tu nem sempre consegues, não é?
Por vezes ausentas-te de ti e fico a olhar-te com frieza.
Apetece-me chamar-te à realidade e a ti mas não me ouves.
Tento esconder o sorriso orgulhoso quando me falam de ti e do quão boa pessoa és.
Tento desculpar-te por todas as vezes que tenho de te “defender” e tu nem me retribuis o sorriso.
Tento esquecer quando me dizem que não estás bem.
Tento. Mas não consigo.
Quero mas não posso.
Podíamos ter crescido juntos, podíamos ter-nos encontrado centenas, até milhares de vezes. Mas não aconteceu. Nunca nada aconteceu.
Podia ter-te ensinado a (sobre) viver.
Podia ter-te ensinado a encarar as coisas de outra maneira.
Podia, mas felizmente não o fiz.
Estaria a tornar-te num ser que não tu.
Estaria a roubar-te a inocência e o bem que ela me faz. O bem que nos faz a todos..
Mas estaria a proteger-te. Do mal que ela te faz a ti.
Mas só por seres assim, tão menino, aposto que preferias a inocência à felicidade. Acertei?

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Posso?


Sinto-me mal.
Derramo todas as tuas lágrimas.
Todas aquelas que deverias deixar cair pelo teu rosto, quando sorris.
Todas aquelas que devias chorar quando és engraçado e fazes os outros rir.
És feliz assim?
Fazendo os outros felizes enquanto te sentes a definhar por dentro?
Eu não consigo ser.
Não consigo ao ver-te assim.
Dá-me vontade de dizer tudo aquilo que o teu olhar me transmite.
De mandar calar todos os comentários inoportunos.
Aqueles que te magoam ainda mais.
Mas como posso fazê-lo se no fim sorris?
Se no fim aceitas? Não posso!
Sinto-me tão impotente!
Oh, nem tu imaginas quanto, meu amor.
Mas não posso mudar o teu rumo.
Não o posso fazer sem ti.
Nem sei se gostavas que o fizesse.
O mais certo seria que perdesses o sorriso.
Como sempre acontece comigo.
Mas depois vêm aqueles momentos que me fazem esquecer TUDO.
Volto a acreditar que pode ser possível.
Iludo-me.
Depois tu sorris, sorris quando te apetece chorar.
E eu desiludo-me.
Choro as tuas lágrimas.
Sinto neste momento que vivo demasiado as coisas por ti.
É tão verdade que não tenho sequer coragem para o negar.
Mas só quero que o teu sorriso seja sincero.
Que mostre o que realmente sentes.
Da mesma forma que desejo que chores quando sentires necessidade.
Porque da mesma forma que estou lá para rir contigo, também te posso enxugar as lágrimas e fazer sorrir de novo.

Posso?

sexta-feira, 28 de março de 2008

Vem sentar-te comigo


Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio.
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
(enlacemos as mãos.)

Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
Vai para um mar muito longe, para o pé do fado,
Mais longe que os deuses.

Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.
Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio.
Mais vale saber passar silenciosamente
E sem desassossegos grandes.

Sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz,
Nem invejas, que dão movimento demais aos olhos,
Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria,
E sempre iria ter ao mar.

Amemo-nos tranquilamente, pensando que podíamos,
Se quiséssemos, trocar beijos e abraços e carícias,
Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro
Ouvindo correr o rio e vendo-o.

Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as
No colo, e que o seu perfume suavize o momento
Este momento em que sossegadamente não cremos em nada,
Pagãos inocentes de decadência.

Ao menos, se for sombra antes, lembrar-te-ás de mim depois
Sem que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova,
Porque nunca enlaçamos as mãos, nem nos beijamos
Nem fomos mais do que crianças.

E se antes do que eu levares o óbolo ao barqueiro sombrio,
Eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti.
Ser-me-ás suave à memória lembrando-te assim - à beira rio,
Pagã triste e com flores no regaço.


Ricardo Reis (Fernando Pessoa)

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Final feliz


Preciso de ti! Preciso MESMO de ti. São estes os momentos em que gostaria que estivesses aqui comigo, a enxugar-me as lágrimas e a abraçar-me contra o teu peito. Em que me dissesses que estava tudo bem e que mesmo que não estivesse o íamos superar juntos. Que gostava que me olhasses daquela maneira tão tua e me sorrisses. Só para me acalmar enquanto me dizias “Descansa. Está tudo bem. Eu estou aqui.” Mas não estás. Nunca estiveste e não fazes questão de me sorrir nem de me olhar. Acho sempre que te estou a conhecer, depois vens com o teu ar de indiferença e deitas por terra toda a minha esperança e todo o meu orgulho. Arrastas-me contigo. Vivo os teus problemas e vivo-te a ti. Começo a viver submersa no teu mundinho. A esquecer-me, e pior, a desprezar o meu. Não sei já onde estou ou porque tenho errado tanto. Porque me fazes fraquejar, no final sorris e eu fico lá, estendida no chão depois da minha enorme queda e da minha, ainda maior, desilusão. Não consigo levantar-me. Estendo-te a mão, sorris e viras-me as costas. Volto a fraquejar e a chamar por ti. Imploro que não me deixes naquele lugar escuro para onde me arrastas-te. Ignoras-me e vejo-te olhar para aquela rapariga com um sorriso inocente que parece estar perdida também. Exibes um sorriso orgulhoso e aproximaste dela. Tento gritar para que ela fuja. Tento avisá-la que vai acabar no lugar escuro onde me deixaste. Mas ela não me ouve e eu não consigo gritar mais alto. Sinto que a qualquer momento, a minha cabeça vai embater com toda a força no chão. Não posso mais pedir aos meus braços que a suportem. Não me obedecem. Só o faziam perante ti. Lembras-te? As minhas lágrimas deslizam pelo meu rosto e caem lentamente, uma a uma, naquele chão frio e crespo. Tento aconchegar-me enquanto te observo a levar a tua próxima vítima. Mostras-lhe tudo o que de bom possuis. Chamas pelo seu nome com a mesma doçura com que usaste o meu. Antes de me abandonares e me deixares para morrer. Antes de me dizeres que não era nem metade do que eu merecia. Conseguiste com que todos acreditassem que eras o meu apoio em vida. Que estavas a sofrer com a minha fuga para um “lugar melhor” dizias tu. Eles, ingénuos, acreditavam piamente em cada palavra tua. Alguns estavam longe de imaginar que a sua filha, ou neta ou irmã seria a tua próxima vítima. Depois daquela rapariga do sorriso inocente teria de vir alguém. Ainda pude ver, pelos meus olhos semicerrados e já sem força para se abrirem, os meus pais. Estavam lá. Lado a lado a viver-me. A dizer que tinham orgulho da sua menina mas que ela estava num “lugar melhor”. Convenceste-os também. Pude ouvir bem ao longe uma voz muito tímida chamar-me tia e dizer que ia ter saudades. Esgotei a minha última lágrima.
Hoje consegui finalmente abrir os olhos. Com dificuldade, confesso. Algo extremamente brilhante me ofuscava. O chão era macio e tinha uma cor suave. Era-me até familiar. Sentei-me nele e percebi que era uma nuvem. Tentei vislumbrar-te lá em baixo. Mas tudo parecia demasiado pequeno. Queria dizer-te que tinhas razão. Estava de facto num lugar melhor. Podes dizê-lo aos meus pais, se me ouvires? Diz-lhes também que encontrei o Sr. Agostinho e que estou agora a rir-me com ele enquanto me chama “Chiquinha”. E se ainda tiveres tempo aí em baixo, diz-lhes que não percebo o preto. A minha cor favorita sempre foi o azul-bebé. Podes dizer-lhes, por favor?

domingo, 10 de fevereiro de 2008

Um bocadinho meu





Mudei completamente.
Fizeste-me mudar.
Principalmente a opinião que tinha sobre ti.
Não és tão inocente como te julgava.
Nem tão alegre.
Nem tão calmo.
Nem tão paciente.
Mas és sempre tu.
Sempre muito tu.
Ás vezes questiono e não sei definir se foi a minha opinião que mudou ou se tu próprio o fizeste.
Já não sorris quando te apetece chorar.
Mas também não choras.
Limitas-te ao silêncio.
E eu, que pareço ser a que pior te conhece, interpreto-te.
Sinto que estás triste e não posso fazer nada.
Nem perguntar o porquê e se precisas de algo.
Se eu perguntasse, contar-me-ias?
Olho sempre para ti com a mesma ternura.
Ás vezes julgam-me por isso.
Por me preocupar demasiado e por fazer da tua vida tão minha.
Mas tu já és um bocadinho meu, não és?
Já me pertences um bocadinho.
Mas tu não sabes. Nem gostarias de saber.
Há coisas que não te posso contar.
Não te posso dizer que estou orgulhosa pelas tuas boas notas. Não te posso dizer que as sei sequer.
Não te posso dizer que não morro de amores pelo teu nome. Não te posso dizer que o sei sequer.
Não te posso dizer que não suporto a tua vozinha. Não te posso dizer que a ouço sequer.
Não te posso dizer que sei o que se passou e que percebo que estejas triste. Não te posso dizer que sei o que se passou sequer.
Já nem te posso ver.
Tomaste proporções que não esperava nem queria.
Ocupaste espaço que não te pertencia e nada fizeste em contrário.
Alguma vez imaginaste que eu estaria a pensar em ti, num dos momentos em que me viste?
Daquela vez ias mesmo dizer-me “Olá”? Ou estavas só a sorrir como de muitas outras vezes?
Sabes o que mais me irrita em ti?
É que mesmo depois de me roubares o sonho, a nuvem colorida, o sorriso, a alegria, o silêncio e o brilho no olhar continuo a gostar de ti como nos tempos em que ainda tinha isso tudo.
Continuo a gostar de ti da mesma forma e com ainda mais intensidade.
É o que mais me irrita em ti.
É o que mais me apaixona e prende a ti.
É seres assim.
Tão tu.
Tão menino.
E tão pouco meu.
Importas-te de ser só um bocadinho mais?

sábado, 2 de fevereiro de 2008

Ladrãzinho


Respirei fundo.
Parti.
Quis voar para um lugar desconhecido.
Um lugar onde tu não existisses e não me atormentasses a toda a hora.
Onde a tua imagem estivesse distante.
Até o prazer de te olhar me tiraste.
Roubaste-me cada pedacinho de sonho, de nuvem colorida.
Roubaste-me o sorriso e teimas em não mo devolver.
Guarda-lo contigo e esconde-lo muito bem escondido.
Não sei para que o queres.
Não te chega o teu que raramente usas?
Roubaste-me a alegria.
Roubaste e não queres devolver.
Porque não ficaste silencioso naquele dia como da outra vez?
Como da vez que eu precisava?
Porque teimaste em falar e falar e falar e levar-me pouco a pouco o resto de sorriso que me restava?
É por prazer que o fazes?
Por felicidade?
Até o brilho do olhar me roubaste.
Não tens vergonha, seu ladrãozinho?
Agora, por favor, devolve-me tudo!
O sonho.
A nuvem colorida.
O sorriso.
A alegria.
O silêncio
O brilho no olhar.
E, se não for pedir demasiado, devolve-me a vontade de te ver. Por favor!

domingo, 27 de janeiro de 2008

Finalmente


Finalmente pude sentir-te.
Ali, comigo.
Senti-te compreensivo como nunca antes acontecera.
Valeu apenas porque finalmente estavas presente.
Não eras só um corpo.
Retribuí o teu sorriso quando tudo o que me apetecia era precisamente o contrário.
Consegui finalmente desfrutar do teu silêncio e do bem que ele me estava a fazer.
Senti compreensão.
Senti como que um abraço a envolver-me quando na realidade eras só tu e o teu silêncio.
Continuamos os dois cabisbaixos como se partilhássemos o mesmo problema.
Como se me estivesses a sentir.
Como se o teu silêncio falasse e me sussurrasse ao ouvido que estavas ali comigo e que não precisaria de mais ninguém.
Era mentira?
Estaria eu a sonhar?
Ou és assim tão bom actor que conseguiste fingir tudo aquilo?
Deste-me alento depois de toda a crueldade com que me trataste.
Foi apenas para te redimires?
Queria tanto que o teu sorriso e o teu silêncio soassem sempre da mesma forma!
Ficou a despedida carinhosa.
Importas-te de repetir?

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

Inocência e ternura


Ele está outra vez a cantar.
Mas hoje o sentimento é outro.
Hoje sinto que já perdi demasiado ao poder sequer, um dia, acreditar que seria possível.
Mas tu és tão inatingível! Repito isto vezes e vezes sem conta. Espero convencer-me de que é mesmo verdade e que nem as palavras de força e coragem podem mudar algo.
Tu apareces na minha vida e gesticulas a tua presença da maneira que mais te convém.
Não sabes, é certo. Mas podias ao menos fazer uma ideia.
Sou tão passageira não tua vida como qualquer pessoa que se cruze contigo na rua.
Sou tão importante para ti como essas pessoas. Até posso existir mas não altero em nada a tua existência.
Como é possível? Como é possível que tenhas virado a minha vida de pernas para o ar quando tudo estava calmo e que nem te tenhas apercebido disso?
Não sei. E aposto que tu também não. Ou será que sabes tudo aquilo de que te julgo inocente e apenas não queres dizer?
São tantas as perguntas sobre ti para as quais não tenho resposta que já nem ouso tentar encontrar a solução.
Diz-me de uma vez! Diz-me que não me queres não tua vida se é isso que sentes.
Mas, por favor (!), não olhes para mim assim!
O olhar que me descrevem como preocupado, aquele que me faz voltar atrás em toda a minha mudança de rumo.
O que me dá alento mas ao mesmo tempo me ilude. Ilude-me de uma forma tão gigantesca que chego a sonhar acordada. E tu, tu estás sempre lá. Presente nos meus sonhos mais ilusórios. Mas os sonhos são isso mesmo não é? Meras ilusões.
Os meus, provocados por ti.
Mas continuas sem ter culpa e eu continuo sem te poder julgar.
Mas não me olhes assim! Não o faças! Será pedir muito? Nem ouses sequer sorrir-me! Porque o teu sorriso é tão fantasioso como o teu olhar.
És uma fraude, sabias? Não és só o menino inocente que aparecia nos meus sonhos de menina apaixonada. És aquele que me tem provocado as maiores tristezas e o maior desalento.
Mas eu perdoo-te. Só porque sei que mereces melhor. Que mereces alguém tão especial como tu.
Agora, vou contar-te um segredo. No fundo, e contra o que possam pensar, o menino inocente que eu conheço é das melhores pessoas com que alguma vez me cruzei. Mas tu não fazes questão de o mostrar.
Agora, por favor, não olhes para mim assim. Nem me sorrias. Isso não. É só o que te peço. Não me iludas ainda mais. Nem me desiludas.
Deixa-me ficar com a tua inocência e ternura. É tudo o que quero guardar de ti. Tudo o que me resta.
E tu? Algum dia vais querer lembrar-te de mim?

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Desculpa


Desculpa-me.
Desculpa-me por todas as vezes que te devia ter sorrido e não o fiz.
Desculpa-me por todas as vezes que te devia ter ouvido e me limitei a ignorar.
Na verdade não sei porque o fiz.
Não era o que realmente queria nem o que realmente merecias.
Porque tu mereces melhor não é?
Tu mereces sempre o melhor.
Mesmo quando tentas que te ouçam e eu, já cansada de te ouvir imploro para que eles te ouçam também e que assim te cales.
Desculpa-me.
Por não ser, nem poder vir a ser a perfeição que precisas e mereces.
Nem me atrevo a contar a alguém que és o motivo das minhas lágrimas.
Nunca me compreenderiam e muito provavelmente ainda me julgariam culpada.
E sou!
É tão verdade!
Continuo a iludir-me mesmo sabendo que nunca será possível.
Tenho cada vez mais a certeza de que nunca irei conseguir.
Mas não há nada que possa fazer não é?
Já nada mais me resta.
E agora?
Queres ser tu a pedir desculpa?

domingo, 13 de janeiro de 2008

Nada!


Olho á minha volta.
Não encontro nada que indique a tua presença.
Mas eu sinto-te.
Sim, é verdade.
Imagino-te sentado a meu lado enquanto me aconchegas e me enxugas as lágrimas. Choro por ti, bem sabes.
Penso nos poucos momentos que considero bons de lembrar.
São TÃO poucos!
Tenho de revive-los vezes e vezes sem conta.
São o meu consolo quando não estás.
Porque tu nunca estás.
A tua presença continua a ser ilusória.
Muitas das vezes decepcionante.
Mas é contigo que sonho todas as noites.
É por ti que sorrio quando caminho sozinha na rua.
É por ti que me esforço para ser uma melhor pessoa.
E no fim?
O que fazes tu por mim?
NADA!
Rigorosamente nada!
Nem te atreves a olhar-me.
Não me achas digna de tal coisa não é?
Como eu te percebo.
Não te posso julgar por não me olhares.
Às vezes nem eu tenho vontade de o fazer.
Hoje por exemplo.
Ah e ontem.
Julgo que anteontem também.
Por isso não te culpo.
Por vezes dou por mim a olhar para ti e a pensar no quão inocente és.
Mas embora pareça difícil de entender, é isso que gosto em ti.
A tua inocência e pureza.
É isso.