"A minha estrela apaga-se no instante em que te amo e com ela a vida e o tempo. Resta Deus ou o que eu acho que Ele é. Ou então a gratidão de existir, existindo perto de ti. Não há nada igual. Não te tenho porque és abstracta. Não existes porque não me é permitido, ou nunca me foi prometido instante assim. Não existo, porque amar como as estrelas está proibido. Não me deixarão amar assim, porque é demais, e tudo o que é demais viola a lei dos virtuosos. Queria dizer-te quanto te adoro quando me dás um bocadinho que seja da paisagem perfeita de que és feita. Não há tons de azul, nem recolhimento de águas, nem segredos de vento, nem cor de flor que desenhem o teu perfil, e dentro desses traços sopra o mosteiro onde me aconchego e me protejo. Espreita e verás uns olhos de criança, vestidos de alegria que só as crianças têm. Mais do que alegria, espanto. Espanto de um mundo que nos leva às cavalitas e nos faz sentir mais altos, assentes em ombros de montanhas, seguros por mãos que, de tão sólidas, lançam âncoras no centro da terra. E dão vontade de rir, porque afinal não há razão para ter medo de mexer nas nuvens, brincar com o infinito, esticar o dedo e provar o céu. Tudo isto para dizer, mais uma vez, só mais uma vez, que te amo. Como uma bênção, como um perdão, como um sorriso ou outra coisa quente que fica, perene, na nossa memória ou na nossa vida. Queria dizer-te da minha gratidão, da minha incredulidade de que estejas ao meu lado. E pedir-te desculpa. Desculpa do carpinteiro que incomoda. Por maçar. Que não exige, mas só por existir incomoda, perturba o equilíbrio das coisas belas, pela humildade de que se veste, pela curva de quem se curva. No meu caso, perante o milagre dos teus olhos. A perfeição do silêncio que nada agita, o fogo da lareira que de madeira se alimenta, que além do mais brinca com os meus olhos. (...) Quero ficar quieto, cabeça enrolada por debaixo da minha asa, ou, melhor ainda, que a asa sejas tu, quando flutuas. Estás perto,na proximidade de anos-luz, que é a medida que se deve usar quando o coração espreita pelo buraco da fechadura. O meu atreve-se, coitado, a essa fantasia, sem perceber que paga com a vida a curiosidade de espiar os deuses. Ou então, por clemência, levará o resto da existência temendo perder, um dia, o que um milagre lhe entregou."
Nuno Lobo Antunes
Sinto Muito