quinta-feira, 9 de abril de 2009

Bailado


Há dias em que sou só uma bailarina perdida no tempo. Faço acrobacias complexas, executo piruetas perfeitas e nem assim. Nem assim me olhas com outro carinho e admiração. Devo confessar que isso já não me afecta tanto quanto seria suposto. Entre quedas aparatosas e vénias sorridentes, experimento de tudo um pouco. Vivo do aplauso proveniente do rapazinho sentado na ponta esquerda da sala. Por vezes nem o sinto. Falhei apenas um passo. Na sessão seguinte, encho-me de tudo um pouco. Para além do pó de arroz e da volumosa saia de tule, volto a vestir o sorriso e faço dele a minha ambição. No último espectáculo, de uma forma bastante tranquila levantaste-te e ficaste a aplaudir-me durante todo o tempo que conseguiste. À saída esperavas-me e enquanto eu me concentrava para ouvir a tua crítica que estava a prever, abraçaste-me com toda a força de que dispunhas. Nunca te havia sentido assim. Tão próximo. Tão compreensivo. E eu que tinha falhado naquele dia. Mas tu perdoaste todas as vezes em que o tinha feito e estavas a dar-me a oportunidade de começar de novo. A solo. Sem medos ou algo que turvasse o que havia entre nós. Foi então que percebi. Já íamos no segundo abraço e eu começava a habituar-me. Hoje, a casa está cheia. Eu voltei a vestir a volumosa saia de tule e exagerei no pó de arroz. As cortinas abriram-se e, do lado esquerdo da sala estavam apenas pessoas cujo tempo já havia passado por elas. Nem sinais de ti. Os abraços não eram perdão. Eram a despedida. Estavas a deixar o que nunca quiseste. E eu só podia continuar a rodopiar enquanto sorria. Pelo menos até ao cair do pano.

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