terça-feira, 14 de abril de 2009

O tempo passa


O tempo passa. Não pára. Nunca. Tudo o que já foi meu ou até mesmo o que nunca chegou a ser volta e entra na minha vida sem qualquer pedido de licença. E eu que já não choro. Nem mesmo quando me fizeste acreditar que me querias e te despediste na semana seguinte. Esgotei todas as minhas lágrimas quando o João partiu. Era demasiado inocente para perceber que não voltava. Todos os fins-de-semana vem buscar os miúdos. Recomendo-lhe que os traga a tempo do jantar de domingo. Não tive ainda coragem de o convidar para ficar connosco. A camisola vermelha que usava quando o Bernardo nasceu nunca saiu do armário. Mas eu já não choro. Nem mesmo quando ele me disse que a minha mesquinhez o irritava e que eu devia ser mais independente. É sexta-feira. Vem buscar o Bernardo e a Maria às 19h em ponto. Pontual sempre foi. Saio às 18h. Passo na escola das crianças e abraço-as assim que as vejo. A Maria vem sorridente e vai lançando piadas para animar o Bernardo que se magoou no treino. À chegada a casa ainda lanço o meu olhar à sala na esperança de encontrar o João a assistir aos jogos da NBA enquanto chama o Bernardo para ver o incrível afundanço do jogador de 2m10. Não está lá. Há cerca de dois anos. Desde essa altura que não choro. A Maria ainda não parou de lançar piadas. Herdou do João o bom humor. Já o Bernardo salta-me para o colo de cada vez que alguém tenta fazer piadas sobre ele. A insegurança legou da mãe. Ouço o som de uma buzina e confirmo pela janela da cozinha se é o carro do João. Coloco-lhes as mochilas e despeço-me dizendo que vou ter saudades. “Portem-se bem”. Avisto-os entrar no automóvel onde outrora viajávamos e cantávamos juntos. É sábado e vou às compras. Continuo a trazer as bolachas que o João tanto gostava. Cheguei a acumular uma dúzia deles na esperança que ele um dia, quando voltasse, os devorasse. Mas eu já devia saber que ele não ia voltar. Domingo. 20h e desta vez é a campainha a soar. A Maria vem a correr, ansiosa por contar as novidades e aventuras do fim-de-semana. O Bernardo, com quatro anos apenas, agarra-me o pescoço e diz que teve saudades. Enquanto deito a Maria e ela fala e fala e fala, ele acaba por adormecer no meu colo. Esta noite ocupa o lugar do João na minha cama e coloca a mão por cima da almofada tal qual ele fazia. Amanhã é segunda-feira. O tempo passa. Não pára. O João não volta. E eu não choro.

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