terça-feira, 1 de julho de 2008

Meu querido


Obrigado! Parece que finalmente conseguiste renunciar a tudo o que me pertencia. Aos poucos, fui recebendo em casa pequenas encomendas. Na primeira, lá estava o meu silêncio. Devolveste-mo finalmente e eu rapidamente me apoderei dele na tentativa de emudecer o meu triste soluçar. A segunda, com uns rabiscos feitos à pressa trazia o sonho. Dizias que esperavas que o pudesse usar rapidamente. Ainda hoje a guardo junto à cabeceira na esperança que uma das noites o consiga reviver. Na seguinte conseguiste suscitar a curiosidade dos vizinhos. Era uma caixa grande e parecia ter vida. Juntas-te lá dentro a minha alegria e a nuvem colorida. Dizias que tinham mais poder juntas. Sempre achei que era só para poupares tempo e trabalho a enviar-me o que me pertencia. Algumas semanas se passaram até receber mais uma caixa, mais uma encomenda, algo que me pertencia e agora não querias mais. Desta vez estavas a devolver-me o brilho no olhar, não foste capaz de escrever uma anotação que o acompanhasse. Deduzi que já não precisasses dele. Passaram-se dias, semanas e até alguns meses. Achei mais uma vez que seria incompetência dos serviços e não tua. Esperava ansiosamente e os vizinhos rapidamente perceberam, talvez mais rápido do que eu, que nada mais chegaria. Mas a mim continuava a faltar-me uma coisa. Algo que tomaste como teu e nunca devolveste. Nem agora que não o queres e o desprezas. Esqueceste-te de me devolver o sorriso, meu querido.

segunda-feira, 30 de junho de 2008

Personagens


Por vezes parecemos a história de uma daquelas novelas sem sentido nenhum. Daquelas que exibem muito floreado e onde a pobre se apaixona pelo rico ou a feia pelo bonitão. Nós apenas mudamos o decorrer natural das coisas. Não nos apaixonamos com um olhar nem vivemos a história de amor perfeito. Contentamo-nos apenas com a parte (pouco) romanceada e com as coincidências habilmente relatadas. Dou por mim a falar no plural quando na realidade sou eu quem vive e se contenta com o pouco que vivemos. Somos personagens secundárias com direito aos desencontros tipicamente novelescos. Em cada episódio costuma aparecer o vilão que estraga, sem piedade, a felicidade do apaixonado casal. Mais uma vez mudamos a acção. Alternamos entre nós esse papel da mesma forma que destruímos os sonhos um do outro. Depois, voltamos à normalidade onde tu sorris e eu perdoo, eu peço desculpa e tu finges perdoar. Mas durante todo este tempo nunca deixamos de representar. A mim sempre me couberam os papéis difíceis. Sou aquela que berra, que irrita, que afasta as pessoas e que não tem ninguém sempre que precisa. Mas aquela que é, no fundo, a que procuram quando os problemas surgem. E sente-se importante assim. Ajuda e quando a vai solicitar, já ninguém quer ouvir porque está demasiado feliz para isso. Existe sempre alguém que desempenha este papel não é? O teu também não é nada que tenha surgido num rasgo de originalidade. Aliás parece até que a tua personagem foi construída a partir da minha tornando todas as características opostas para que não desse tanto trabalho a sua procura. És o sensível e adorado. Nunca desapontas nem desiludes. Tens amigos e sentido de humor. Não gritas nem manifestas qualquer som que seja mais forte. O teu tom de voz não se altera em nenhuma circunstância. És daquelas personagens que poderia passar despercebida durante todo o tempo de duração da novela. Não te deixas conhecer nem irradias uma sala assim que entras, mas és sempre muito tu e cada vez mais menino que vai, a pouco e pouco, despejando palavras sábias antagónicas à atitude de sempre. Continuamos a surpreender. Por vezes, perguntas-me como estou e não consigo dizer-te a verdade. Limito-me a dizer-te que está tudo bem. E tu rematas dizendo que gostas de me ver sorrir. Pura simpatia da tua parte. Na realidade não gostas de nada que me diga respeito e julgas que eu também não. Enganas-te tanto, meu querido! Depois vêm os momentos embaraçantes e saídos da tela. Quando, por distracção de ambos, íamos chocando. Nenhum de nós soube reagir. Riamos como crianças e olhávamo-nos sem proferir uma única palavra. Mas como todas as histórias, há sempre um final. Feliz ou não. Tranquilo ou não. E nós, como não poderia deixar de ser, fugimos ao destino tipicamente novelesco. Não houve final feliz nem sorrisos contagiantes. A mim ainda me falta a tranquilidade e sobras-me tu. Tentei a todo o custo que a ideia de ti morresse com o final da tua personagem. Que tu próprio te perdesses e não mais ousasses representar. Não dividiremos mais o protagonismo ou a falta dele. Agora, nesta nova acção, é cada um por si meu querido.

quinta-feira, 15 de maio de 2008

Todos os cantos cheiram a ti.


Todos os cantos cheiram a ti. A rua, as casas, até a minha vida tem o teu perfume. Sempre achei que fosse mito, e confesso, até ridiculo, quando ouvia alguém dizer ‘Chateado ficas mais bonito’. Deixei de o fazer. Chateado, triste, o que quer que seja oposto a boa disposição faz-te parecer melhor. Até sorris, imagina. Por vezes penso que gosto da imagem que criei de ti e não daquilo que és na realidade. Aquela coisa da apreensão do objecto através da construção de uma imagem partindo das suas caracteristicas, sabes? Sou tão má a interpretar-te como sou a Filosofia. Por vezes procuro-te por cada espacinho vago que haja na rua, outras, rezo a todos os santos em que não acredito só para que não apareças. Ver-te, não significa mais do que não te ter. De que na realidade nunca vais ser mais do que isso. Hoje o teu cheiro era mais intenso. Pela primeira vez invertemos papéis. Desta vez fui eu a descarregar a minha frustração em ti. Se fores capaz, desculpa-me.
Parece que conseguiste.Perdoar-me e aceitar-me. Finalmente senti isso. Não sei durante quanto tempo durará.A preocupação, o sorriso e o sorriso seguinte. Hoje, mais do que nunca preciso de ti. De te sentir.

sexta-feira, 2 de maio de 2008

Fotografia


Nunca precisei tanto de ti. Nunca desejei que as coisas não tivessem sido assim. E, principalmente, nunca quis mudar-te. Não como quero agora. Como quero poder fazer-te perceber que só podes ter a importância que me deixares dar-te. Cada vez mais tenho a certeza que não és o menino perfeitinho que achei conhecer. Não és perfeitinho. Talvez menino continues a ser. Por vezes, olho para a nossa fotografia e desejo torná-la só minha. Mas tirar-te da fotografia não me permite tirar-te da minha vida. Não sais assim tão facilmente. Continuas a fazer o que fazias exactamente quando eras um menino perfeitinho. Chegas, sorris e abandonas-me. Deixas-me o teu sorriso e partes. Não há nada mais sensato que possas fazer. Não há nada que me magoe tanto quanto isso. Continuo a precisar de ti e a sonhar contigo. Continuas a fazer-me falta e eu continuo a não conseguir perceber-te. Quero que tudo isto acabe. Tenho medo de deixar de gostar de ti. Ultimamente já nem sorris. Nem falas. Nem me olhas. Receio que finalmente te estejas a revelar. Que este sejas, verdadeiramente, tu. Ao olhar para a fotografia, só vejo isso. Um pedaço de papel, dois rostos estranhos e dois sorrisos enganadores. Não somos tão felizes como ali aparentamos, pois não? Não ficamos tão bem juntos como dizem que ali estamos. Mas é só um pedaço de papel. Vamos envelhecer juntamente com aquele pedaço de vida. Da minha vida. Ela deteriorar-se-á assim como nós. Assim como aquilo que sinto por ti. Mas é só uma fotografia. Pode desaparecer com um rajada de vento, ser destruída pela inundação que houver aqui em casa em dia de tempestade, ficar perdida numa das gavetas. Mas eu, meu querido, não sou levada pelo vento, nem corro o risco de perder a cor com a inundação. Infelizmente, também não me posso perder numa das gavetas. Mas sorri. Posso sempre gostar um bocadinho de ti.

quarta-feira, 16 de abril de 2008

Tão menino


Não te conheço.
Transformaste-te em tudo um pouco.
Mas não, nunca, no menino que imaginava.
Não te percebo.
Não sei porque continuas a insistir em não me deixar entrar na tua vida quando foi apenas e só o que de bom soubeste fazer com a minha.
Não te peço que me fales.
Ouve-me apenas.
Não te peço que me sorrias.
Só não me faças chorar.
Quero que sejas sempre tu porque é assim que gosto de ti, mas tu nem sempre consegues, não é?
Por vezes ausentas-te de ti e fico a olhar-te com frieza.
Apetece-me chamar-te à realidade e a ti mas não me ouves.
Tento esconder o sorriso orgulhoso quando me falam de ti e do quão boa pessoa és.
Tento desculpar-te por todas as vezes que tenho de te “defender” e tu nem me retribuis o sorriso.
Tento esquecer quando me dizem que não estás bem.
Tento. Mas não consigo.
Quero mas não posso.
Podíamos ter crescido juntos, podíamos ter-nos encontrado centenas, até milhares de vezes. Mas não aconteceu. Nunca nada aconteceu.
Podia ter-te ensinado a (sobre) viver.
Podia ter-te ensinado a encarar as coisas de outra maneira.
Podia, mas felizmente não o fiz.
Estaria a tornar-te num ser que não tu.
Estaria a roubar-te a inocência e o bem que ela me faz. O bem que nos faz a todos..
Mas estaria a proteger-te. Do mal que ela te faz a ti.
Mas só por seres assim, tão menino, aposto que preferias a inocência à felicidade. Acertei?

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Posso?


Sinto-me mal.
Derramo todas as tuas lágrimas.
Todas aquelas que deverias deixar cair pelo teu rosto, quando sorris.
Todas aquelas que devias chorar quando és engraçado e fazes os outros rir.
És feliz assim?
Fazendo os outros felizes enquanto te sentes a definhar por dentro?
Eu não consigo ser.
Não consigo ao ver-te assim.
Dá-me vontade de dizer tudo aquilo que o teu olhar me transmite.
De mandar calar todos os comentários inoportunos.
Aqueles que te magoam ainda mais.
Mas como posso fazê-lo se no fim sorris?
Se no fim aceitas? Não posso!
Sinto-me tão impotente!
Oh, nem tu imaginas quanto, meu amor.
Mas não posso mudar o teu rumo.
Não o posso fazer sem ti.
Nem sei se gostavas que o fizesse.
O mais certo seria que perdesses o sorriso.
Como sempre acontece comigo.
Mas depois vêm aqueles momentos que me fazem esquecer TUDO.
Volto a acreditar que pode ser possível.
Iludo-me.
Depois tu sorris, sorris quando te apetece chorar.
E eu desiludo-me.
Choro as tuas lágrimas.
Sinto neste momento que vivo demasiado as coisas por ti.
É tão verdade que não tenho sequer coragem para o negar.
Mas só quero que o teu sorriso seja sincero.
Que mostre o que realmente sentes.
Da mesma forma que desejo que chores quando sentires necessidade.
Porque da mesma forma que estou lá para rir contigo, também te posso enxugar as lágrimas e fazer sorrir de novo.

Posso?

sexta-feira, 28 de março de 2008

Vem sentar-te comigo


Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio.
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
(enlacemos as mãos.)

Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
Vai para um mar muito longe, para o pé do fado,
Mais longe que os deuses.

Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.
Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio.
Mais vale saber passar silenciosamente
E sem desassossegos grandes.

Sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz,
Nem invejas, que dão movimento demais aos olhos,
Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria,
E sempre iria ter ao mar.

Amemo-nos tranquilamente, pensando que podíamos,
Se quiséssemos, trocar beijos e abraços e carícias,
Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro
Ouvindo correr o rio e vendo-o.

Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as
No colo, e que o seu perfume suavize o momento
Este momento em que sossegadamente não cremos em nada,
Pagãos inocentes de decadência.

Ao menos, se for sombra antes, lembrar-te-ás de mim depois
Sem que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova,
Porque nunca enlaçamos as mãos, nem nos beijamos
Nem fomos mais do que crianças.

E se antes do que eu levares o óbolo ao barqueiro sombrio,
Eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti.
Ser-me-ás suave à memória lembrando-te assim - à beira rio,
Pagã triste e com flores no regaço.


Ricardo Reis (Fernando Pessoa)