
Preciso de ti! Preciso MESMO de ti. São estes os momentos em que gostaria que estivesses aqui comigo, a enxugar-me as lágrimas e a abraçar-me contra o teu peito. Em que me dissesses que estava tudo bem e que mesmo que não estivesse o íamos superar juntos. Que gostava que me olhasses daquela maneira tão tua e me sorrisses. Só para me acalmar enquanto me dizias “Descansa. Está tudo bem. Eu estou aqui.” Mas não estás. Nunca estiveste e não fazes questão de me sorrir nem de me olhar. Acho sempre que te estou a conhecer, depois vens com o teu ar de indiferença e deitas por terra toda a minha esperança e todo o meu orgulho. Arrastas-me contigo. Vivo os teus problemas e vivo-te a ti. Começo a viver submersa no teu mundinho. A esquecer-me, e pior, a desprezar o meu. Não sei já onde estou ou porque tenho errado tanto. Porque me fazes fraquejar, no final sorris e eu fico lá, estendida no chão depois da minha enorme queda e da minha, ainda maior, desilusão. Não consigo levantar-me. Estendo-te a mão, sorris e viras-me as costas. Volto a fraquejar e a chamar por ti. Imploro que não me deixes naquele lugar escuro para onde me arrastas-te. Ignoras-me e vejo-te olhar para aquela rapariga com um sorriso inocente que parece estar perdida também. Exibes um sorriso orgulhoso e aproximaste dela. Tento gritar para que ela fuja. Tento avisá-la que vai acabar no lugar escuro onde me deixaste. Mas ela não me ouve e eu não consigo gritar mais alto. Sinto que a qualquer momento, a minha cabeça vai embater com toda a força no chão. Não posso mais pedir aos meus braços que a suportem. Não me obedecem. Só o faziam perante ti. Lembras-te? As minhas lágrimas deslizam pelo meu rosto e caem lentamente, uma a uma, naquele chão frio e crespo. Tento aconchegar-me enquanto te observo a levar a tua próxima vítima. Mostras-lhe tudo o que de bom possuis. Chamas pelo seu nome com a mesma doçura com que usaste o meu. Antes de me abandonares e me deixares para morrer. Antes de me dizeres que não era nem metade do que eu merecia. Conseguiste com que todos acreditassem que eras o meu apoio em vida. Que estavas a sofrer com a minha fuga para um “lugar melhor” dizias tu. Eles, ingénuos, acreditavam piamente em cada palavra tua. Alguns estavam longe de imaginar que a sua filha, ou neta ou irmã seria a tua próxima vítima. Depois daquela rapariga do sorriso inocente teria de vir alguém. Ainda pude ver, pelos meus olhos semicerrados e já sem força para se abrirem, os meus pais. Estavam lá. Lado a lado a viver-me. A dizer que tinham orgulho da sua menina mas que ela estava num “lugar melhor”. Convenceste-os também. Pude ouvir bem ao longe uma voz muito tímida chamar-me tia e dizer que ia ter saudades. Esgotei a minha última lágrima.
Hoje consegui finalmente abrir os olhos. Com dificuldade, confesso. Algo extremamente brilhante me ofuscava. O chão era macio e tinha uma cor suave. Era-me até familiar. Sentei-me nele e percebi que era uma nuvem. Tentei vislumbrar-te lá em baixo. Mas tudo parecia demasiado pequeno. Queria dizer-te que tinhas razão. Estava de facto num lugar melhor. Podes dizê-lo aos meus pais, se me ouvires? Diz-lhes também que encontrei o Sr. Agostinho e que estou agora a rir-me com ele enquanto me chama “Chiquinha”. E se ainda tiveres tempo aí em baixo, diz-lhes que não percebo o preto. A minha cor favorita sempre foi o azul-bebé. Podes dizer-lhes, por favor?
Hoje consegui finalmente abrir os olhos. Com dificuldade, confesso. Algo extremamente brilhante me ofuscava. O chão era macio e tinha uma cor suave. Era-me até familiar. Sentei-me nele e percebi que era uma nuvem. Tentei vislumbrar-te lá em baixo. Mas tudo parecia demasiado pequeno. Queria dizer-te que tinhas razão. Estava de facto num lugar melhor. Podes dizê-lo aos meus pais, se me ouvires? Diz-lhes também que encontrei o Sr. Agostinho e que estou agora a rir-me com ele enquanto me chama “Chiquinha”. E se ainda tiveres tempo aí em baixo, diz-lhes que não percebo o preto. A minha cor favorita sempre foi o azul-bebé. Podes dizer-lhes, por favor?

