terça-feira, 1 de julho de 2008

Meu querido


Obrigado! Parece que finalmente conseguiste renunciar a tudo o que me pertencia. Aos poucos, fui recebendo em casa pequenas encomendas. Na primeira, lá estava o meu silêncio. Devolveste-mo finalmente e eu rapidamente me apoderei dele na tentativa de emudecer o meu triste soluçar. A segunda, com uns rabiscos feitos à pressa trazia o sonho. Dizias que esperavas que o pudesse usar rapidamente. Ainda hoje a guardo junto à cabeceira na esperança que uma das noites o consiga reviver. Na seguinte conseguiste suscitar a curiosidade dos vizinhos. Era uma caixa grande e parecia ter vida. Juntas-te lá dentro a minha alegria e a nuvem colorida. Dizias que tinham mais poder juntas. Sempre achei que era só para poupares tempo e trabalho a enviar-me o que me pertencia. Algumas semanas se passaram até receber mais uma caixa, mais uma encomenda, algo que me pertencia e agora não querias mais. Desta vez estavas a devolver-me o brilho no olhar, não foste capaz de escrever uma anotação que o acompanhasse. Deduzi que já não precisasses dele. Passaram-se dias, semanas e até alguns meses. Achei mais uma vez que seria incompetência dos serviços e não tua. Esperava ansiosamente e os vizinhos rapidamente perceberam, talvez mais rápido do que eu, que nada mais chegaria. Mas a mim continuava a faltar-me uma coisa. Algo que tomaste como teu e nunca devolveste. Nem agora que não o queres e o desprezas. Esqueceste-te de me devolver o sorriso, meu querido.