
Por vezes parecemos a história de uma daquelas novelas sem sentido nenhum. Daquelas que exibem muito floreado e onde a pobre se apaixona pelo rico ou a feia pelo bonitão. Nós apenas mudamos o decorrer natural das coisas. Não nos apaixonamos com um olhar nem vivemos a história de amor perfeito. Contentamo-nos apenas com a parte (pouco) romanceada e com as coincidências habilmente relatadas. Dou por mim a falar no plural quando na realidade sou eu quem vive e se contenta com o pouco que vivemos. Somos personagens secundárias com direito aos desencontros tipicamente novelescos. Em cada episódio costuma aparecer o vilão que estraga, sem piedade, a felicidade do apaixonado casal. Mais uma vez mudamos a acção. Alternamos entre nós esse papel da mesma forma que destruímos os sonhos um do outro. Depois, voltamos à normalidade onde tu sorris e eu perdoo, eu peço desculpa e tu finges perdoar. Mas durante todo este tempo nunca deixamos de representar. A mim sempre me couberam os papéis difíceis. Sou aquela que berra, que irrita, que afasta as pessoas e que não tem ninguém sempre que precisa. Mas aquela que é, no fundo, a que procuram quando os problemas surgem. E sente-se importante assim. Ajuda e quando a vai solicitar, já ninguém quer ouvir porque está demasiado feliz para isso. Existe sempre alguém que desempenha este papel não é? O teu também não é nada que tenha surgido num rasgo de originalidade. Aliás parece até que a tua personagem foi construída a partir da minha tornando todas as características opostas para que não desse tanto trabalho a sua procura. És o sensível e adorado. Nunca desapontas nem desiludes. Tens amigos e sentido de humor. Não gritas nem manifestas qualquer som que seja mais forte. O teu tom de voz não se altera em nenhuma circunstância. És daquelas personagens que poderia passar despercebida durante todo o tempo de duração da novela. Não te deixas conhecer nem irradias uma sala assim que entras, mas és sempre muito tu e cada vez mais menino que vai, a pouco e pouco, despejando palavras sábias antagónicas à atitude de sempre. Continuamos a surpreender. Por vezes, perguntas-me como estou e não consigo dizer-te a verdade. Limito-me a dizer-te que está tudo bem. E tu rematas dizendo que gostas de me ver sorrir. Pura simpatia da tua parte. Na realidade não gostas de nada que me diga respeito e julgas que eu também não. Enganas-te tanto, meu querido! Depois vêm os momentos embaraçantes e saídos da tela. Quando, por distracção de ambos, íamos chocando. Nenhum de nós soube reagir. Riamos como crianças e olhávamo-nos sem proferir uma única palavra. Mas como todas as histórias, há sempre um final. Feliz ou não. Tranquilo ou não. E nós, como não poderia deixar de ser, fugimos ao destino tipicamente novelesco. Não houve final feliz nem sorrisos contagiantes. A mim ainda me falta a tranquilidade e sobras-me tu. Tentei a todo o custo que a ideia de ti morresse com o final da tua personagem. Que tu próprio te perdesses e não mais ousasses representar. Não dividiremos mais o protagonismo ou a falta dele. Agora, nesta nova acção, é cada um por si meu querido.